Mergulhadores planejam resgate heróico na Tailândia

Garotos podem ficar presos por até 4 meses em complexo de cavernas de mais de 10km, com muitas restrições e baixa visibilidade

Na noite de ontem, 2/7, foram encontrados os 12 garotos e seu treinador de futebol que estão presos em uma caverna inundada do sistema Tham Luang, na Tailândia, desde o dia 23/6. Os mergulhadores britânicos Rick Stanton e John Volanthen foram os primeiros a ter contato com o grupo, e agora ajudam a montar uma operação de resgate sem precedentes.

Veja o vídeo deste momento emocionante, em que confirma-se estarem todos os 13 lá e vivos. Um dos meninos diz que eles querem sair logo, ao que o mergulhador responde “Eu sei, eu entendo… mas não será hoje. Mas está tudo bem, muita gente está vindo, somos apenas os primeiros”. Outro garoto fala que eles estão com muita fome e pergunta “que dia é hoje?”.

Agora, corre-se contra o relógio para retirar o grupo de lá, já que entre julho e novembro o Sudeste Asiático vive a temporada de monções, e as fortes chuvas devem chegar à Tailândia nos próximos dias. Para o resgate, há três opções: ensinar os 13 (que nem sabem nadar) a mergulhar, drenar o sistema com as gigantes bombas que estão trabalhando 24 horas por dia (pelo menos até um nível em que eles possam flutuar até a entrada com coletes salva-vidas), ou esperar o final das chuvas (o que pode demorar até 4 meses).

Dois médicos da Marinha tailandesa já estão na caverna com os garotos e se voluntariaram a ficar lá ininterruptamente, pelo tempo que demorar até o resgate. Mergulhadores estão constantemente realizando o complicado trajeto de/para o local onde o grupo está abrigado, planejando o possível resgate e levando comida, água, medicamentos, luzes e demais suprimentos – para que sejam suficientes caso eles continuem presos lá até o final da época de monções.

Hoje, o governo tailandês pediu doações de 15 máscaras full-face tamanho S ou XS – as que eles possuem seriam largas no rosto dos garotos –, o que indica que um resgate subaquático está sendo considerado para os próximos dias. A máscara full-face pode tornar a tarefa menos arriscada, diminuindo as chances de afogamento acidental comparado ao uso um regulador tradicional. Também estão sendo realizadas pesquisas e explorações para localizar uma “porta dos fundos” – uma outra saída do complexo ou um ponto que possa ser escavado para acessar as vítimas.

Militares tailandeses solicitam máscaras full-face tamanho pequeno

Como Marinha tailandesa não é especializada em mergulho em caverna, um time internacional de profissionais experientes se uniu aos britânicos, incluindo o belga Ben Reymenants, fundador da Blue Label Diving, maior operadora de mergulho técnico da Tailândia. Ele estava alguns metros atrás de Rick Stanton e John Volanthen na hora em que as vítimas foram encontradas, e logo foi ao encontro do grupo.

Ele acredita que os garotos ainda estão muito fracos para uma tentativa de resgate com mergulho. “Eles estão psicologicamente melhor do que prevíamos, mas não se alimentaram por 10 dias, estão com os músculos atrofiados, mal conseguem parar em pé. Os médicos estão trabalhando para que eles reestabeleçam as forças logo. Só então poderemos evacuá-los.” Veja trechos da declaração de Reymenants à mídia, assim que saiu da caverna:

O belga ressalta tratar-se de um mergulho de longos 2,5km, muito difícil, com baixa visibilidade e restrições. “É um sistema de caverna extremo, um dos maiores da Tailândia, com túneis complexos e fluxo. Quando começa a chover, é impossível vencer a correnteza. Um dos mergulhos mais difíceis que já fiz, com visibilidade zero em alguns pontos. Demoramos mais de 4 horas para chegar até lá. Então conduzir 13 pessoas abaladas e sem experiência por este caminho é uma missão muito difícil e arriscada, tanto para eles quanto para os resgatadores. Um dos maiores problemas é que há trechos muito estreitos, em que só passa um mergulhador de cada vez. Os garotos podem entrar em pânico.”

Segundo a equipe, o plano para um resgate subaquático deve envolver uma mangueira longa de segundo estágio, para que, durante as passagens mais estreitas, um resgatador consiga ir atrás, carregando o cilindro da vítima, e outro mergulhador vá na frente, possivelmente de costas, mantendo contato visual com o garoto. Eles serão lastreados para flutuabilidade neutra e podem ser “empacotados” para evitar enroscos.

Vista da entrada do sistema de cavernas, alagado com água barrenta das monções

O incidente

Com idades entre 11 e 16 anos, os garotos, integrantes do time de futebol “Wild Boars”, desapareceram no sábado 23/6, durante uma excursão com o treinador após um jogo. Foram surpreendidos por chuvas de monção que rapidamente inundaram boa parte do sistema Tham Luang, que tem 10km de extensão, na fronteira da Tailândia com Mianmar e Laos. O grupo foi fugindo cada vez mais para dentro e se abrigou em uma pequena caverna seca, mais elevada, a cerca de 3km da entrada e 1km abaixo da superfície.

No final do mesmo dia, a equipe de fiscais do parque encontrou bicicletas, calçados e mochilas abandonados na entrada dos túneis, e notificou os serviços de emergência. Pelo menos 1.000 militares tailandeses formaram equipes de resgate, que logo detectaram pegadas e marcas de mãos, além de outros itens pessoais deixados para trás, indicando uma rota de fuga.

Até serem localizados, os garotos não devem ter comido quase nada sólido, somente beberam a água limpa que escorre pelas paredes da caverna e tinham apenas uma lanterna – que, claro, ficou sem bateria. Dez longos dias no escuro, com fome e sem muito espaço para movimento. Por sorte, lá dentro é úmido e com temperatura de cerca de 26°C, o que evitou desidratação e hipotermia das vítimas. O suprimento de ar também foi garantido devido à porosidade da formação calcária e às pequenas rachaduras nas rochas.

Itens pessoais dos garotos foram sendo deixados pelo trajeto

As buscas

Nos primeiros dias de buscas, ao perceberem a dimensão e as dificuldades da operação, autoridades tailandesas pediram o apoio do Conselho Britânico de Resgate em Caverna (BCRC). Três experientes mergulhadores se voluntariaram e rapidamente voaram até o local: Richard William Stanton, Robert Charles Harper e John Volanthen, renomados internacionalmente por seus resgates em caverna, se juntaram aos Navy Seals Tailandeses.

Chuvas torrenciais continuavam a prejudicar o avanço dos esforços de resgate e a iminente ameaça de mais inundações demandou cautela e paciência nas equipes de terra e subaquáticas. Usando rebreathers e sidemount, os britânicos fizeram diversos mergulhos de reconhecimento e avançaram aos poucos, cabeando as passagens; depois, mergulhadores da marinha tailandesa fixavam cilindros extra de ar, a cada 25 metros, por todos os caminhos. Mais de 600 cilindros foram levados ao local – muitos deles estampados com preces e mensagens de encorajamento.

Recarga montada no local
Cilindro com mensagem em tailandês: “encontrem eles logo”

Enquanto isso, os militares instalaram um sistema de bombas para drenar o máximo possível de água para fora das cavernas e tentam “alargar” algumas das passagens mais restritas. Segundo a equipe, 1,6 milhões de litros estão sendo removidos por hora – o que representa uma queda no nível de água de cerca de 1cm por hora. Porém, chuvas muito fortes podem tornar esse trabalho em vão, inundando ainda mais câmeras do sistema: o atual percurso alagado é de cerca de 2,5km, mas passará de 5km se isso acontecer, o que pode inviabilizar até o envio de suprimentos e qualquer contato com o grupo.

Para planejar as buscas, as equipes tinham à disposição apenas um mapa feito 30 anos por um espeleologista francês, com algumas correções posteriores. Baseado nele, sugeriram duas câmeras em que o grupo poderia estar e concentraram os esforços nesse caminho. Experiência, especulação e sorte: o grupo todo foi localizado 400 metros mais adiante daquela área alvo.

Mapa aproximado da distância percorrida pelo grupo; as áreas em laranja estão totalmente alagadas

Mergulhadores britânicos

Rick Stanton, 56, e John Volanthen, 47, têm um extenso currículo de resgates em caverna, trabalhando juntos em operações heróicas pelo mundo todo.

Em 2004, Stanton apareceu nas manchetes mundiais pela primeira vez, após o resgate de 13 espeleologistas do governo britânico presos por águas de enchente no sistema Cueva de Alpazat, no México. Ele conseguiu realizar um mergulho de cerca de 200m com cada uma das vítimas – a extensão do que pode ser feito na Tailândia não tem precedentes.

Rick Stanton (esquerda) e John Volanthen (direita)

Em 2010, Stanton e Volanthen foram convocados pelo governo francês para localizar o mergulhador Eric Establie, preso na caverna Dragonnière Gaud, na região de Marselha, após uma avalanche de silt – seu corpo foi encontrado após 8 dias de operações, e por isso os dois resgatadores receberam medalhas de honra da Royal Humane Society. Eles também estiveram envolvidos em uma tentativa não-sucedida de retirar o corpo de dois mergulhadores finlandeses na caverna Plura, na Noruega, em 2014 (mais tarde, amigos da vítimas conseguiram recuperar os corpos, história que é contada no filme “Diving into the Unknown”).

Stanton é um bombeiro aposentado de Coventry, com mais de 35 anos de experiência em mergulho. Já ganhou a medalha de “Herói do Ano” do Corpo de Bombeiros e, em 2012, foi nomeado MBE (Membro da Ordem do Império Britânico), por seus serviços ao mergulho em caverna. Muitas vezes, é referido como o melhor mergulhador da Europa. Volanthen é um engenheiro de computação e consultor de TI em Bristol; corre maratonas e mergulha em seu tempo livre. Em 2010, a dupla, junto com mais dois mergulhadores, bateu o recorde de penetração em caverna, chegando a 8,8km no sistema Pozo Azul, na Espanha.

Por: Marcella Duarte | Divemag.com

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