Brothers Islands, no Mar Vermelho, é fechada para mergulho após incidentes com tubarões galha branca

As atividades de mergulho nas Ilhas Brothers, no Mar Vermelho, Egito, estão suspensas “até o final do ano”, segundo o governo local. A medida foi tomada após uma série de incidentes durante interações com tubarões-galha-branca-oceânico (Carcharhinus longimanus), comuns no ponto.

Três mergulhadores foram mordidos, um em junho e dois em novembro, e também houve um registro de colete equilibrador atacado no mês passado. Os dois primeiros tiveram ferimentos leves nos quadris ou pernas; o caso mais grave e recente, no dia 10/11, resultou em uma grande perda muscular e danos ósseos na vítima.

Mergulhador foi mordido por tubarão-galha-branca, nas Brothers Islands, no dia 10/11

Veja o vídeo do momento. Nas imagens, o tubarão surge rodeando o grupo, inicialmente curioso por um dos turistas – que aparenta pânico, com movimentos erráticos de braços e pernas, e se esquiva mais de uma vez –, e depois investe forte contra a perna de outro mergulhador (de side mount), que é ferido e apresenta rápida hemorragia.

A visibilidade estava ótima e não se vê indícios de alimentação dos animais na água (dois fatores que costumam potencializar o risco de ataques); o que fica claro, porém, é a falta de protocolos de segurança.

“É o tipo de acidente que poderia ser evitado com um briefing. Em um mergulho com tubarões, principalmente com espécies inquisitivas e potencialmente agressivas como os galhas-branca, precisamos estar atentos. Os mergulhadores estavam todos separados, a diferentes profundidades, sem contato visual com o animal e se movimentando como uma presa. Claramente não foram preparados para aquele encontro”, diz Gabriel Ganme, médico, instrutor de mergulho e autor do livro ‘Sobre Homens e Tubarões’.

Especula-se que os incidentes recentes envolvam mais de um tubarão – e não um único animal com comportamento mais agressivo, como na fatalidade de 2010 (duas mulheres feridas e uma morta em Sharm-El-Sheikh). De acordo com as autoridades egípcias, não há planos de uma nova matança de tubarões; a suspensão do mergulho no ponto encorajaria os galhas-branca a seguirem seu curso natural de hábitos nesta época do ano, retornando ao mar aberto, longe de ilhas, recifes e, consequentemente, mergulhadores.

“Tenho dúvidas que isso venha dar certo. Eles podem desagrupar em um primeiro momento mas depois retornam para onde há alimento. O que se faz necessário é retirar os estímulos ao comportamento predatório nos pontos de mergulho, como resíduos e alimentos na água, e, principalmente, preparar os mergulhadores e treinar os operadores para essas interações”, acredita Gabriel.

A situação nas Ilhas Brothers deve ser monitorada nas próximas semanas e, no final do ano, as autoridades irão informar as próximas decisões e como proceder em 2019.

Vista do famoso farol; paredões da Big Brother se estendem a mais de 100m de profundidade e abrigam dois naufrágios

O acidente é um aviso à comunidade internacional de mergulho sobre a necessidade de regulação da atividade e capacitação. Nos últimos anos, houve um aumento desregrado de liveaboards pelo Mar Vermelho, acompanhados por seus sons, cheiros e alimentação – intencional ou não – dos tubarões. Milhares de pessoas mergulham nas Ilhas Brothers todos os meses. Além de alguns usarem peixes para atrair os animais, o que é proibido por lá, muitos barcos descartam lixo, principalmente restos de comida e resíduos orgânicos, diretamente na água. “O galha-branca-oceânico tem uma olfação extremamente aguçada. Era conhecido por ser o primeiro visitante em naufrágios da Segunda Guerra. Então eles seguem os barcos se há alimento”, destaca Gabriel.

A pesca ilegal na região (um parque marinho) também é outro motivo responsável pelo agrupamento do galhas-brancos próximo às Brothers – um ponto oceânico, isolado, desabrigado e profundo, em geral com correnteza, bem no meio do caminho entre o Egito e a Arábia Saudita. Única formação da região, as pequenas ilhas Big Brother e Small Brother são um atrativo, com alimento e estações de limpeza, para grandes animais pelágicos, como raias manta, barracudas, napoleões, garoupas e tubarões – além dos galha-branca, também são frequentes os encontros com martelos e raposas (thresher).

Os principais protocolos a seguir em um mergulho com tubarão são: nunca dar as costas ao animal; ficar em posição mais vertical e sem muitos movimentos (assim você “impressiona” o tubarão, acostumado com presas que nadam horizontalmente); se manter em grupo, próximos uns dos outros e na mesma profundidade, se possível acima da do animal; evitar a área entre os 0-6m de profundidade (diferente de tubarões de hábitos mais profundos, como os martelo, os galha-branca-oceânicos procuram alimento perto da superfície, incluindo carcaças de mamíferos e peixes feridos); usar neoprene completo e evitar equipamentos coloridos.

“Mergulho com tubarão pode ser uma atividade segura, desde que respeitemos os procedimentos, o ambiente e o animal. Devemos lembrar que é ele quem está em seu habitat natural, nós somos os visitantes. Os guias do mergulho também devem estar preparados para intervir rapidamente em casos de uma aproximação agressiva, inclusive com o uso de um bastão”, ressalta Gabriel.

Tubarão-galha-branca-oceânico rondando os barcos de mergulho esperando o descarte de lixo, no entorno das Ilhas Brother, no Mar Vermelho

Os tubarões-galha-branca-oceânicos são classificados como vulneráveis à extinção na lista vermelha da IUCN. Ainda sabe-se pouco sobre o comportamento dessa espécie e todo mergulhadores que visita o Mar Vermelho pode contribuir com os pesquisadores e conservacionistas do Red Sea Shark Trust. Envie seus vídeos e fotos para identificação do tubarão, através das manchas únicas nas nadadeiras dorsais e peitorais (se possível relatando data, horário e local do avistamento, temperatura da água, profundidade e qualquer padrão de comportamento) por e-mail info@redseasharks.org ou pela página do Facebook; imagens de tubarões-baleia, raias-manta e outros grandes animais também são bem-vindas.

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