Guias já estão prontos para receber mergulhadores e turistas em Alcatrazes

Data de início das operações ainda não foi definida; falta a instalação das poitas

Eram 11h da manhã última sexta-feira, 20/7, um dia ensolarado, quando um grupo que reunia biólogos, guias turísticos e donos de agências de turismo chegou ao destino final de sua “formatura”: o Arquipélago dos Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo. Considerado o maior ninhal de aves marinhas do Sul e Sudeste brasileiro, o local foi palco do encerramento do curso para 126 profissionais que poderão, a partir das próximas semanas, explorar turisticamente o lugar.

Neste final de semana, também, foi concluída a etapa prática da formação dos divemasters e instrutores, com três mergulhos no arquipélago. Segundo os participantes, o barco saiu por volta das 7h30 de Ilhabela, chegando am Alcatrazes após três horas de navegação. A tripulação passou as orientações de segurança e a equipe do ICMBIO deu o briefing dos mergulhos, realizados em grupos de 4 ou 5 pessoas. A visibilidade era de cerca de 20 metros e uma termoclina fazia a água bater 18°C a partir dos 10m. O frio era compensado pelo visual e pela vida: belos paredões, grutas, passagens e corredores repletos de cardumes de enxadas e peixes menores, além de muitas raias-prego, diferentes estrelas do mar, ouriços e tartarugas. Tornando a experiência ainda mais especial, durante os mergulhos era possível ouvir o canto das baleias jubarte, que passam pela região nesta época rumando a Abrolhos (BA), onde se reproduzem.

Os profissionais formados receberam, por quase um ano, informações sobre regras das unidades de conservação, estudos sobre legislação ambiental e conhecimentos sobre a fauna e flora. Do grupo, 80 foram habilitados para realizar mergulhos e os 46 restantes para visitas embarcadas, segundo a analista ambiental do órgão, Sílvia Neri Godoy.

Os cursos foram ministrados por representantes de USP, Unifesp, Marinha, Naui (associação de instrutores submarinos), Instituto Argonauta de Ubatuba e Fundacc (Fundação Educacional e Cultural de Caraguatatuba). A data de início das operações de mergulho e turismo, porém, ainda não foi definida. Ainda faltam alguns ajustes técnicos, como a instalação de poitas – equipamento que permite o fundeio de barcos.

Por décadas, Alcatrazes foi usado pela Marinha para exercícios de tiro. Agora, após anos de negociações, o arquipélago será aberto ao turismo náutico e de contemplação de aves e ao mergulho, se transformando na primeira reserva marinha de vida silvestre com visitação pública permitida, diz o ICMBio, órgão federal que faz a gestão do local com a Marinha.

“Podemos estar diante de um caso único no mundo, em que um lugar como Alcatrazes é preparado antes de ser aberto ao turismo. Normalmente, o que ocorre é a necessidade de criação de regras para um turismo que já ocorre de forma desordenada”, diz Calixto Figueiroa, analista ambiental do ICMBio-Alcatrazes.

A iniciativa fomentará também o turismo marítimo entre Angra dos Reis (RJ) e Guarujá (SP), trecho que concentra milhares de embarcações de passeio. A visita em terra continuará proibida, assim como a permanência de embarcações em seu entorno e qualquer tipo de pesca.

A partir da abertura para o turismo, os visitantes terão a oportunidade de observar aves marinhas, tartarugas, golfinhos e, com sorte, baleias. Para ir ao arquipélago, segundo o ICMBio, será necessário procurar uma das 20 agências de turismo já certificadas pelo órgão, espalhadas pelo litoral norte.

O nome Alcatrazes vem de como eram chamadas espécies de gaivotas marinhas. Uma das hipóteses é que o batismo veio do viajante alemão Hans Staden, que passou dez meses como prisioneiro dos índios Tubinambás, no século 16. Na ocasião, ele navegou por ilhas do litoral paulista.

O arquipélago é preservado em razão de restrições de uso estabelecidas pela Marinha na década de 1980. Em 2016, houve a criação do Refúgio de Alcatrazes, ampliando a proteção da área. O refúgio abriga o maior ninhal de aves da espécie fragata marinha do Atlântico Sul. A área é relativamente isolada de répteis anfíbios, o que cria o ambiente seguro para reprodução de fragatas, atobás, gaivotões.

Alcatrazes funciona como um berçário e “estoque natural” para outros lugares onde é permitida a pesca. De acordo com o ICMBio, há 1.300 espécies de animais no local, das quais 93 estão sob algum grau de ameaça de extinção. As ilhas são local de descanso de tartarugas marinhas ameaçadas, além de serem encontrados no entorno tubarões, raias e golfinhos.

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