Assim como o título desta matéria, o plástico sempre nos pareceu inofensivo. Há muitas décadas presente em nossas vidas, esse polímero sempre foi sinônimo de modernidade, praticidade e progresso.
No início, tinha tudo para ser a invenção do século: barato, resistente e facilmente moldável, revolucionou a indústria. Sendo usado nas montadoras de veículos, tornou os carros mais leves, gerando assim economia de combustível. Por ser um grande isolante térmico, foi largamente utilizado construção civil, o que acabou gerando diminuição de uso de energia para aquecimento nas casas. As fibras sintéticas feitas a partir deste material mostraram ser termo eficientes e duradouras: jaquetas, fleeces e tantos outros produtos foram produzidos aos milhões, durante décadas.

A indústria alimentícia também encontrou a embalagem perfeita: leve, com baixo custo e que aumenta a shelflife dos produtos nos supermercados.
O fato de o plástico ser ainda reciclável adicionava mais um benefício a esse material inovador. Tudo parecia perfeito. Até que algo começou a boiar na superfície. Adivinhe?
Quando começamos a nos sabotar?
O problema começou lá atrás, quando ainda nem se falava em reciclagem. O lixo era comumente descartado nos oceanos, até os anos 70. Algo então visto como uma prática óbvia e corriqueira – algo que lamentavelmente hoje, em 2018, ainda acontece em muitas localidades pelo mundo.
Também muito plástico sempre foi (e ainda é) descartado pelo sistema de esgoto das casas. Sim, acredite: as pessoas jogam muito plástico privada abaixo. Grande parte desse material vai parar nos mares e oceanos. Os aterros sanitários também não são sistemas eficazes de descarte: rotineiramente falham na proteção dos lençóis freáticos, contaminando grandes fontes de águas subterrâneas. Muitas vezes são lavados por enchentes, que acabam por fim levando todo lixo – incluindo os plásticos – para o oceano.

Garrafa PET: só o topo do iceberg
Os notícias trazidas pelos cientistas não são nada animadoras: pedaços de plástico que conseguimos ver boiando nos mares – na maioria, garrafas PET, sacolinhas de supermercado e canudinhos – representam apenas 30% do lixo descartado. Ou seja, as “ilhas gigantes de plástico” que viajam pelas correntes oceânicas e das quais você com certeza você já ouviu falar são menos da metade do que já repousa no fundo dos mares.

Os números, que finalmente vieram à tona, são simplesmente assustadores: até 2050, haverá mais peso em plástico nos oceanos do que em peixes. A estimativa é que mais de 5 trilhões de pedaços plásticos já estejam boiando no mar, por todo o mundo.
Microplástico: um vilão invisível
Há décadas a humanidade vem se envenenando com o plástico. Sua tímida taxa de reciclagem (apenas 9% deste material são reciclados hoje no mundo), aliada ao longo período para sua decomposição, são fatores que contribuíram para chegarmos a uma situação de emergência.
Quebrando-se lentamente em partículas minúsculas e muitas vezes até microscópicas – os chamados microplásticos – podem levar até 500 anos para se decompor nos oceanos.
O resultado catastrófico disso não parece ser muito difícil de se prever: estima-se que 90% de todas as aves marinhas já tenham engolido plástico em algum ponto de suas vidas; no Mediterrâneo ocidental, amostras recentes mostram uma proporção de 1:2 entre plástico e plâncton.
Peixes estão se alimentando de plástico e, por sua vez na cadeia alimentar, contaminando os seres humanos. Os resultados disso são problemas no nosso sistema imunológico e aumento de casos de câncer.
Todo ano, mais de 1 milhão de animais marinhos morrem em decorrência de terem se alimentado de detrito plástico.

O que estamos fazendo para mudar este quadro?
A resposta é simples: nada. Pelo contrário, estamos produzindo cada vez mais plásticos – nunca se produziu tanto plástico quanto estamos produzindo hoje. Estudos mostram que, por ano, cada homem, mulher e criança irá consumir 136 kg de plástico de “único uso”. Em outras palavras, aquele material será utilizado uma única vez e descartado em seguida.
No mundo todo, são utilizadas aproximadamente 1 trilhão de sacolinhas plásticas por ano – quase 2 milhões de sacolinhas por minuto. O pior? O tempo médio de utilização dessas sacolinhas, antes do descarte, é de apenas 12 minutos.
O resultado disso tudo, em maneiras práticas: são cerca de 8 milhões de toneladas de plástico que acabam nos oceanos por ano; mais de 90% dos norte-americanos acima dos 6 anos de idade têm níveis detectáveis de BPA em seus corpos. Em amostras de água de torneira coletadas em 10 capitais mundiais, como São Paulo, Paris e Nova Iorque, 9 continham microplásticos – mesmo depois de terem passado pelos sistemas de tratamento de água. Acredita-se que as roupas de fibras sintéticas sejam grandes responsáveis por esse problema: uma única blusa de fleece desprende milhares de micropartículas a cada lavagem.

O que podemos (e devemos) fazer para mudar este quadro?
A resposta não é simples. Como em uma crise sistêmica generalizada, é a soma de vários pequenos fatores interligados que poderão mudar esta realidade. Mas o mais importante para termos em mente: mudanças ocorrem com ações, não só com ideais.
De maneira prática, comece utilizando, antes da reciclagem, a regra dos 4Rs: repense (antes de adquirir um produto ou embalagem que contenha plástico), recuse (opte por não consumir produtos que contenham plásticos), reduza (diminua seu consumo e uso de plásticos) e reuse (para o mesmo fim ou um novo – aquela embalagem de plástico pode virar um vaso para sua mesa de trabalho, em vez de acabar no lixo).
Listamos atitudes cotidianas que podem ajudar a mudar essa realidade:
- Recuse plásticos de “uso único”(aqueles que serão descartados após serem utilizados uma só vez);
- Não use canudinhos plásticos;
- Leve sua própria sacola reutilizável para o supermercado;
- Não compre produtos embalados em plástico;
- Cobre do seu supermercado local, café ou restaurante o uso de materiais e embalagens reutilizáveis e sustentáveis;
- Não embale coisas em plástico descartável; troque o filme plástico dos alimentos pelos potes de vidro com tampas;
- Leve sua própria garrafa de água ou caneca para a escola ou trabalho, evitando assim o uso de descartáveis;
- Promova a limpeza de praias e rios na sua comunidade; catar o lixo plástico durante a trilha na montanha também vale.
Precisamos mudar nossas atitudes, para que as empresas e indústrias comecem a tomar atitudes mais responsáveis em relação ao uso de plástico, inclusive no desenvolvimento de plásticos reciclados e biodegradáveis. Bons exemplos já partem de companhias como a Volvo, sendo criativas e encontrando novas soluções para o descarte do plástico: por meio de um processo de aquecimento chamado pirólise, estão transformando plástico em diesel. Ou seja, a transformação de um problema ambiental em um bem de consumo.

Precisamos cobrar dos novos governantes políticas públicas que exijam a responsabilidade dos fabricantes pela reciclagem do plástico colocado no mercado (como hoje é feito na Alemanha, o que resultou em uma taxa de 66% de reciclagem de todas as embalagens plásticas).
Em outras palavras, precisamos mudar o nosso alvo: parar de mirar em nossos pés e passar a atirar nas reais causas deste grave problema. Essa é a única maneira de evitar que nosso futuro seja “plastificado”.
Por: Karina Oliani e Andrei Polessi

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