Raia manta é vista pela primeira vez em Recife

Raia manta é vista pela primeira vez em Recife

Registro histórico pode indicar nova espécie habitando a costa brasileira
por: Marcella Duarte | fotos: Rawany Porpiplho – Dolphin Eye

Na última sexta-feira, 3/8, uma raia manta foi avistada durante um mergulho no Parque de Naufrágios de Recife, no nordeste do Brasil. Este é o primeiro registro de uma manta viva nas águas do litoral continental de Pernambuco e, de acordo com a análise das fotos, trata-se de um jovem macho com cerca de 2,5m de envergadura. O encontro inédito aconteceu no rebocador Saveiros, que fica a 28m de profundidade, a 8 milhas da costa, em frente à praia de Boa Viagem.

“Era o finalzinho do mergulho. Os clientes estavam subindo para o barco e eu fiquei para desamarrar e certificar que nada nem ninguém havia ficado no naufrágio. Quando saí, dei de cara com a manta lá pelos 25m, e vi o fotógrafo chegando para registrá-la. Ela estava muito dócil, deixou ser fotografada, passava por nós, ia e voltava de um lado a outro no convés, rodava e dançava pelo azul da água. Ficamos muito tempo com ela, só subimos porque estava acabando o ar. Foi a primeira vez que vi uma manta mergulhando, muito emocionante”, lembra Ricardo Maciel Sanchez, instrutor da operadora Aquáticos.

Ricardo avistou a manta quando deixava o naufrágio Saveiros

“Já estava no procedimento de subida quando escutei o coronel Josualdo Moura, que havia retornado para o barco com seus alunos, vibrando de emoção ao ver aquele animal tão raro na nossa região. Conferi meu tempo de mergulho e quantidade de ar e estava tudo ok, era o primeiro mergulho do dia e eu estava com uma dupla de S-80, então desci novamente. Iniciei minha aproximação da raia manta, ao mesmo tempo meu parceiro de trabalho Ricardo também se aproximou, e comecei a fazer as fotos dela. Quando ela nos percebeu, começou a interagir com a gente e ficou conosco até a hora que subimos. Esse foi o melhor encontro que tive no fundo do mar até hoje, uma espécie realmente incrível”, conta Rawany Porpilho, fotógrafo da operação e instrutor.

Muito dócil, manta interagiu com Ricardo e Rawani

Até então, o único registro de uma manta em Recife datava de 2010, porém de um animal já morto por um pescador – na época, sua pesca ainda não era proibida por Lei. “Ela foi logo picotada e vendida, só sobrou a cabeça, então não foi possível identificá-la ou estudá-la. As fotos do encontro da semana passada, porém, são muito importantes para a ciência. Agradecemos a Aquáticos e à Dolphin Eye pelo importante registro que integrará nosso banco de dados e contribuirá para a pesquisa das mantas no Brasil e no mundo. Trata-se de um macho juvenil, e, claro, os mergulhadores vão poder batizá-lo com o nome que escolherem”, ressalta Ana Paula Balboni Coelho, coordenadora do Projeto Mantas do Brasil.

O novo registro é ainda mais importante para os pesquisadores, pois pode tratar-se de um exemplar de uma nova espécie endêmica, ainda não descrita cientificamente, surgida com o isolamento geográfico e a evolução. “Se uma população se isola e os cruzamentos vão ocorrendo só entre aquele grupo, a genética vai se modificando ao longo de milhares de anos e pode acabar ocasionando em uma nova espécie. Ainda não sabemos exatamente se isso já aconteceu ou se está em vias de acontecer, mas estamos observando e presenciando a mágica da natureza”, comemora Ana Paula.

Trata-se de um macho juvenil com cerca de 2,5 metros

Nova espécie latino-americana

Até 2009, os cientistas acreditavam existir uma única espécie de raia manta (M. birostris – conhecida como “oceânica”), quando uma segunda foi descrita (M. alfredi – a “de recife”); ambas estão classificadas como vulneráveis na lista vermelha IUCN.

Ana Paula explica a atual pesquisa: “a existência de uma terceira espécie está sendo investigada pela Dra. Andrea Marshall, estadunidense, e pelo Dr. Tom Kashiwagis, japonês, e é possível que ela ocorra do Golfo do México até o Rio de Janeiro. Temos uma cooperação internacional com cientistas de diversos países para tentar decifrar isso. Talvez os indivíduos brasileiros não coincidam exatamente com essa população do México, mas o que já podemos afirmar é que se trata, sem dúvidas, de outra população de mantas, segregada por alguma razão da população do Sul-Sudeste do Brasil”.

As mantas gigantes que aparecem nesta época do ano no litoral de São Paulo, principalmente na região da Laje de Santos e Queimada Grande, pertencem à espécie M. birostris, oceânicas e migratórias, que passam os verões no Sul e os invernos no Sudeste. Elas podem chegar a mais de 6m de envergadura e possuem padrão de coloração chevron, com uma área cinzenta nas bordas das nadadeiras peitorais (as “asas”), muitas manchas no ventre (que são como impressões digitais, únicas e eternas em cada animal) e cara preta. Também apresentam uma massa calcificada na base caudal, onde fica o espinho vestigial – reminiscência do ferrão que ela perdeu no processo evolutivo.

Manta vista em Recife possui o ventre branco, sem chevron e com apenas uma manchinha

Já essa terceira espécie tem características bem diferentes: tamanho menor, cara e ventre brancos com raras machas (leucísticas), e apenas uma pequena protuberância caudal. Animais com essas características já foram registrados no litoral norte do Rio de Janeiro, no Espírito Santo, na Bahia e, principalmente, no arquipélago de Fernando de Noronha.

Em Noronha, o Banco Brasileiro de Mantas já computa 30 avistamentos de 12 animais diferentes – ou seja, as mesmas mantas reapareceram em diversas épocas do ano, o que indica que podem ter escolhido a região como seu lar. “O processo de foto identificação delas é mais difícil, pois são muito brancas e com poucas pintas, quando as têm. Tínhamos 5 registros ocorridos no arquipélago entre 2002 e 2004. Mas então passaram-se 10 anos sem nenhum. Em 2014, os avistamentos recomeçaram, e parecem crescer ano a ano. Em 2017 tivemos o recorde de 19, e em 2018 já foram mais 4. Além do surgimento da nova espécie, com hábitos diferentes, também podem ter havido pequenas alterações nas correntes e temperaturas dos oceanos, não necessariamente relacionadas ao comportamento humano, que fizeram com que elas escolhessem novas zonas para viver”, diz Ana Paula.

Contribua para a pesquisa brasileira, envie suas fotos e vídeos para o Projeto Mantas do Brasil, que tem patrocínio do Porto de Santos (Codesp) e da Petrobras.

1 comentário

  1. Grande Ricardo, fizemos bons mergulhos ai em Recife. Equipe sensacional !
    Danillo
    Inaqcua RJ

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