Mergulhando em uma prisão soviética

Inundadas pela água da pedreira na qual os condenados trabalhavam, ruínas de Rummu, na Estônia, se transformaram em balneário

Por Marcella Duarte | Divemag.com

Fotos: ABANDONED NORDIC

Onde um dia houve prisioneiros, agora há banhistas e mergulhadores. Quem poderia imaginar que um campo de trabalho forçado soviético se tornaria um dos mais interessantes locais de mergulho da Europa?

As cênica ruínas da prisão Murru ficam na pequena cidade de Rummu, no noroeste da Estônia, a 40km de Tallin, a capital. Estão incrustradas na pedreira de Rummu, hoje inundada. O lago de cor turquesa (devido à formação calcária) guarda uma importante parte da história do país. O complexo serviu, por mais de 50 anos, ao regime soviético.

Prédios antigos afloram da água como ilhas. Ao redor, sedimentos da pedreira viraram areia de praia. Pilhas de até 70m de altura de rejeitos de mineração emolduram o cenário, verdadeiras dunas desenhadas pela erosão e vegetação.

Fotos: ABANDONED NORDIC

Há muito a se pensar antes de mergulhar nas ruínas de uma prisão – principalmente no inverno de um país frio. Os exploradores finlandeses Tanja Palmunen e Kimmo Parhiala, do projeto Abandoned Nordic, estão há quase três anos procurando e fotografando paisagens abandonadas do Norte europeu, como quintas, pátios de carros, cassinos e igrejas e até prisões, mesmo durante o inverno rigoroso.

Fotos: ABANDONED NORDIC

Debaixo d’água, o cenário de Rummu é bem diferente dos muros que vemos de fora, servindo de trampolim para os banhistas. “Próximo ao prédio principal, um mergulhador consegue visitar outras construções, que estão completamente submersas. Esses edifícios grandes, com muitos cômodos, estão cobertos por musgo verde e detritos” lembra Parhiala. “Também há muros antigos, com luminárias intactas. É uma sensação estranha imaginar os presos tentando descobrir se conseguiriam escalar os muros e escapar. Agora, simplesmente pairamos sobre eles sem nenhuma resistência.”

Assista ao vídeo:

Lá, a profundidade não é um problema para os mergulhadores. “O lago é raso, com profundidade entre 5m e 10m na região dos prédios. O que significa que podemos ficar lá por bastante tempo, sem se preocupar muito com descompressão”, disse Parhiala. Do outro lado do lago, há uma floresta abandonada, com árvores submersas de até 4m de altura. Lá, a profundidade chega a 13m.

Fotos: ABANDONED NORDIC

Temperaturas extremas

A grande preocupação dos viajantes é mergulhar pela região durante os meses mais gelados do ano. “O inverno no Norte da Europa baixa a temperatura da água para 3 a 4°C. Então usamos uma roupa seca. Mesmo assim, depois de certo tempo, nossos organismos não conseguem lidar com a água congelante e começamos a sentir frio, muito frio”, completou Parhiala.

Como em todo mergulho de água doce, outro fator importante é a visibilidade – e há muito o que se ver em Rummu: armazéns da pedreira, prédios da prisão, muros de pedra, maquinário de mineração, vegetação submersa. Os meses mais frios, em que a temperatura são parecidas na superfície e no fundo da água, são justamente os melhores nesse quesito. A água atinge visibilidades caribenhas de até 40m. O alto verão – que na Estônia não significa muito mais que 22°C – também é um bom período.

Fotos: ABANDONED NORDIC

No mergulho do Abandoned Nordic, a visibilidade estava muito boa, como comprovamos pelas imagens – mas a dupla vivenciou o que se espera de um inverno estoniano. “O frio fez meus lábios tremeram ainda quando começamos a descida para a parte submersa do prédio principal”, lembra Parhiala.

No quesito fotografia, mergulhar em prédios em um lago raso é particularmente complicado. Eles aconselham: “Você tem de mudar as configurações da câmera enquanto foca na flutuabilidade, já que se tocar um fundo calcário, muito sedimento vai subir e estragar a visibilidade. Também precisa estar atendo pois, quando menos percebe, está na superfície”.

Os mergulhadores se moveram lentamente por toda a área da prisão, tirando fotos e contemplando a história do local. “Grades nas janelas nos lembraram de um passado sombrio. Como muitos outras construções abandonadas na Estônia, este foi feito de tijolos baratos, cinzas, que estão empilhados por todo o fundo. Dentro de um estranho prédio submerso, fizemos uma pausa para observar nossas bolhas atingirem o teto, desfrutando uma ruptura na sensação normal da gravidade.”

Carga histórica

A pedreira Rummu foi estabelecida pelos soviéticos no final do da década de 1930, para mineração de calcário de “mármore Vasalemma” (um calcário de qualidade superior, que se assemelha a mármore). A prisão foi aberta em 1938, convenientemente anexa a ela: cerca de 400 condenados eram forçados a trabalhar na mina, escavando e processando o minério, por no mínimo 12 horas por dia.

Os muros, que uma vez pareciam impenetráveis, sofreram a força da história humana, da natureza e do tempo. Com a dissolução da União Soviética, em 1991, a Estônia (re)declarou sua independência e a prisão foi abandonada. As bombas que mantinham a pedreira seca (mandando a água para ser usada na agricultura em cidades vizinhas) deixaram de funcionar, causando a rápida inundação do complexo e formação do lago.

 

Fotos: ABANDONED NORDIC

Conheça o projeto Abandoned Nordic

abandonednordic.com/
instagram.com/abandoned_nordic

 

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