Patrimônio avalia naufrágios no Tejo em Portugal

Direção-Geral confirma que recebeu documentação sobre os achados e que iniciou processo sobre eles

A Direção Geral do Património Cultural (DGPC) está a avaliar os achados dos dois naufrágios no Tejo que lhe foram comunicados a 20 de Outubro, bem como a sua primeira avaliação científica por uma equipa coordenada pelo arqueólogo subaquático Alexandre Monteiro, “para eventual proposta ulterior das ações necessárias à sua salvaguarda e conservação”.

O arqueólogo subaquático Alexandre Monteiro fez estudo preliminar do achado | (REINALDO RODRIGUES/GLOBAL IMAGENS

A informação foi prestada ao DN pela DGPC, na sequência da notícia “Achado de naufrágio no Tejo, “único no mundo, pode estar em risco””, publicada no DN na última sexta-feira.

A descoberta dos dois navios, um provavelmente do século XVII, o outro anterior ao século XIX, e com características “únicas no mundo”, segundo Alexandre Monteiro, foi feita a 19 de Outubro por dois mariscadores profissionais, Sandro Pinto e Pedro Patacas, que decidiram contactar Alexandre Monteiro, e que, logo a 20 de Outubro, comunicaram o achado à DGPC. Na primeira avaliação no local, cujo relatório também foi remetido à DGPC, o arqueólogo e a sua equipa confirmaram a importância desta descoberta.

Num dos casos, o navio naufragado – o que é anterior ao século XIX e que ficou designado como Tejo B – está num “estado de preservação incrível, e com uma carga única de centenas de barris”, cujo conteúdo é ainda um mistério, a exigir um estudo.

O seu estado de preservação indica que o navio esteve sepultado nas areias durante séculos e que só recentemente, por qualquer motivo, ficou destapado. Mas isso implica também que no local onde se encontra afundado, entre a Trafaria e o Bugio, a uma profundidade entre sete e nove metros, está sujeito a tempestades que podem dispersar os barris e destruir o navio e a sua carga. Por isso Alexandre Monteiro afirmava ao DN, no artigo publicado na sexta-feira, ser necessário “um estudo urgente para perceber a dinâmica do local” e para se “saber o que se faz, se se tapa, se põem sacos de areia”, sendo que “é a DGPC que tem de fazer alguma coisa”

Tal como a lei prevê, os autores do achado comunicaram-no no prazo de 48 horas, a 20 de Outubro, à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), que tem agora até 20 de janeiro para concluir um processo de avaliação e classificação dos dois locais dos naufrágios e, eventualmente, fazer a sua preservação. A DGPC confirmou agora que esse processo está em curso.

A equipa de Alexandre Monteiro está, entretanto, a preparar a publicação do primeiro artigo científico sobre o duplo achado, o que ocorrerá já em janeiro, na revista Al-Madan, que é editada pelo Centro de Arqueologia de Almada.

Entenda mais sobre a descoberta:

Foto: John Sexton

Descoberta foi comunicada à Direção-Geral do Património, que tem agora de avaliar o sítio e fazer a sua classificação

O mergulho teve de ser rápido, 30 minutos, não mais, por causa das marés. Mas foi o suficiente para a equipa científica, reunida à pressa, fazer vídeos e fotos no local e, sobretudo, ficar com a certeza de que aquele navio há muito naufragado à entrada do Tejo, entre a Trafaria e o Bugio, “é uma descoberta de importância mundial, que se encontra num estado de preservação incrível”, como assegura o arqueólogo subaquático Alexandre Monteiro. Mas, avisa o investigador, “há riscos, se o local não for preservado”.

Carregado de barris e de enigmas, aquele é um dos dois navios naufragados no Tejo que foram descobertos, por uma incrível coincidência, no mesmo dia, a 19 de Outubro, por Sandro Pinto e Pedro Patacas, dois mariscadores profissionais, que decidiram alertar Alexandre Monteiro. “Fui ver os vídeos que eles tinham feito e apercebi-me logo da importância da descoberta”, lembra o arqueólogo e investigador do Instituto de Arqueologia e Paleociências (IAP) da Universidade Nova de Lisboa.

Tal como a lei prevê, os autores do achado comunicaram-no no prazo de 48 horas, no dia 20 de Outubro, à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), entidade que tem agora 90 dias, até 20 de janeiro, para concluir um processo de classificação dos dois locais dos naufrágios e fazer a sua preservação, se for necessário. Esse pode muito bem ser o caso do navio com a carga de barris – “devem ser mais de 500”, estima o arqueólogo – que há mais de 200 anos, pelo menos, encalhou à entrada do Tejo, entre a Trafaria e o Bugio, e ali ficou, sepultado nas areias, até que emergiu, “há não mais de um ano, pelo que observámos da colonização dos seres marinhos”, acabando por ser descoberto há dois meses

“É preciso um estudo urgente, nomeadamente para perceber a dinâmica do local”, defende Alexandre Monteiro. “Com as tempestades, que muitas vezes vêm de sul, há o risco de que aqueles barris todos se espalhem e muitos se percam”, alerta. “É preciso saber o que se faz, se se tapa, se põem sacos de areia, e é a DGPC que tem de fazer alguma coisa”.

O DN tentou contactar a DGPC para obter informações sobre o processo de classificação e preservação dos achados, mas até à hora de fecho desta edição isso não foi possível.

O que há dentro dos barris?

Depois de ter visto os vídeos de Sandro Pinto e Pedro Patacas, e sabendo, pela sua anterior experiência, que “a DGPC não enviaria uma equipa para o local para fazer um primeiro reconhecimento científico, como lhe caberia”, Alexandre Monteiro decidiu mobilizar uma equipa entre os investigadores com quem habitualmente trabalha para cumprir essa tarefa. “Achámos que era urgente, e foi o que fizemos”, diz. “Usámos uma embarcação que a Estrutura de Missão Para a Extensão da Plataforma Continental [a EMEPC] nos emprestou e avisámos a DGPC”, lembra.

O relatório desse trabalho realizado a 28 de Outubro, que também foi enviado para a DGPC, confirma a importância dos achados. Nomeadamente do navio afundado com os seus barris, designado como Tejo B, com o seu estado ótimo de preservação, “como se fosse uma cápsula do tempo”.Só não se sabe quanto tempo.

Este naufrágio, cujos despojos estão a cerca de sete metros de profundidade, pode ter ocorrido entre os séculos XIII e XVIII, inclusive. Os aros dos barris, feitos ainda em madeira apontam para uma antiguidade anterior ao século XIX.

“Os barris estão estivados [acomodados como carga] e, debaixo deles, sob a areia, estará o resto da carga e o navio todo”, o que significa, que um projeto de estudo arqueológico “teria ali trabalho para dez anos”, calcula o investigador.

Já o conteúdo dos barris, é um enigma. “Vinho não será, porque em princípio eles ter-se-iam partido. Mas pode ser muita coisa”, sublinha. “Moedas, cal, pólvora, pregos, ferros, ou outra carga diversa, não sabemos. O que sabemos é que temos ali um navio completo com a sua carga, que é algo que não existe em mais lado nenhum do mundo, e com a possibilidade de ter um espólio arqueológico importantíssimo”.

Além do seu enigmático conteúdo, os barris, com 75 cm de comprimento, têm outra mais-valia fundamental para o conhecimento do navio afundado: podem ajudar a avaliar a tonelagem, um dos problemas com que os arqueólogos subaquáticos sempre se confrontam. “Neste caso está lá tudo: com os barris e conseguimos chegar à tonelagem”.

Canhões e âncoras em ferro

O outro achado, que ficou cunhado como Tejo A, é um caso “mais típico”, como o diz Alexandre Monteiro, com a vantagem de que “o sítio está mais protegido, mais fora [da barra], e onde é mais difícil mergulhar”, embora a profundidade, de oito a nove metros, seja muito idêntica. Sabe-se que estão lá uma parte do casco de madeira, vários canhões em ferro, três âncoras também em ferro, e dois pratos de estanho que ali foram encontrados apontam para aquele seja um navio do século XVII. Tal como aconteceu com o outro, encalhou à entrada da barra e, quem sabe, pode estar ali, sob as areias, uma descoberta de grande impacto para a arqueologia – mas só um estudo o dirá. Antes disso, porém, o sítio terá de ser classificado e reconhecido como património arqueológico que, na verdade, é.

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