Lembrança para a vida: mergulhando com golfinhos em Revillagigedo

Por: Viviane Kunisawa

Quando uma amiga me chamou para mergulhar em Revillagigedo, ainda nunca tinha ouvido falar deste lugar fantástico. San Benedicto, Roca Partida, Socorro e Clarión formam um grupo de quatro ilhas vulcânicas no Oceano Pacífico, a cerca de 400 Km da costa do México, a partir de Cabo San Lucas, na ponta da península da Baja California. É considerado patrimônio mundial pela UNESCO.

Em pesquisas a respeito do lugar, soube que lá podíamos mergulhar com raias-manta e golfinhos, além de possuir uma rica vida marinha local que incluía muitos tubarões. Mas nada me preparou para a experiência maravilhosa que vivi.

A expedição começou quando o nosso animado grupo de 22 mergulhadores (21 brasileiros e um australiano) embarcou no live aboard Solmar V em direção à ilha San Benedicto, aonde chegamos após quase 24 horas navegando com um mar bem batido. A expectativa era grande, relatos e vídeos de grupos anteriores serviam para entusiasmar o grupo que se enturmava jogando papo fora.

Ilha San Benedicto

O check dive, tão esperado após a longa navegação, ocorreu ao final da tarde no ponto El Fondeadero, com correnteza, mas que já nos agraciou com uma grande raia-manta, tubarões -de-galha-branca-de-recife e vários atuns. Esse era apenas um “cheiro” do que nos aguardava nos próximos dias.

No dia seguinte, os mergulhos foram feitos em El Cañon. O primeiro foi um show: uma família de golfinhos passando no meio do grupo, grandes tubarões-de-Galápagos, tubarões-de-galha-branca-de-recife e tubarões silver tip, além de duas raias-manta, cuja presença passaria a ser marcante ao longo da viagem. E como bem disse o Divemaster que guiava o meu grupo “sempre esteja nos primeiros mergulhos pela manhã!” E não que os demais mergulhos neste ponto tenham sido menos ricos: vimos cardumes de tubarões-martelo, alguns passando bem próximos, mantas e, ao final do mergulho, embaixo do barco, um cardume gigantesco de xaréus, com tubarões silky caçando em volta.

Em El Cañon, saíamos de botes infláveis para os pontos de mergulho, mas retornávamos mergulhando direto para o live aboard, enquanto nos demais pontos, os botes nos pegavam também ao final.

Ainda em San Benedicto, os mergulhos seguintes foram em El Boiler. Uma grande pedra em torno da qual mergulhávamos com tubarões-de-galha-branca-de-recife, cardumes de xaréus, atuns-de-rabo-amarelo, raias-prego, na esperança de vermos mais mantas. Era sabido que em El Boiler ocorriam os relatos de maiores interações. E não nos decepcionamos: duas raias-manta – uma chevron e uma negra – vieram nos rodear em dois mergulhos, passando de mergulhador em mergulhador para sentir nossas bolhas e nos saudar. San Benedicto é uma ilha vulcânica lindíssima e foi possível ver fumaça saindo nas montanhas, enquanto relaxávamos após os dias de mergulhos.

Roca Partida

Mas a jóia da coroa de Revillagigedo, Roca Partida, ainda estava por vir. Uma formação rochosa que se projeta para fora da água, servindo de descanso para os pássaros da região. Embaixo d’água um mergulho recheado de tubarões-de-galha-branca-de-recife. De acordo com a dimensão da toca e buraco na rocha, dormiam grupos de tubarões adultos, juvenis, filhotes, enfim, de vários tamanhos e gostos! E com direito a lagostas ao lado para o deleite dos fotógrafos de plantão. Isso sem contar com os outros tubarões: silky, galapaguenses e martelos que por ali “passeavam”, além de um cardume enorme de bigeye trevallys e atuns. Por estar mais afastada, muitas vezes estão de passagem por Roca Partida tubarões-baleia que, infelizmente, não vimos.

O último mergulho em Roca Partida foi o meu maior presente desta viagem. Contrariando as expectativas de que eles apareciam apenas pela manhã, neste mergulho no meio da tarde, um grupo de golfinhos começou a interagir conosco. Iam e voltavam, brincando e pedindo atenção. Por mais de meia hora, estávamos em êxtase total. Mergulhar com golfinhos, olhando em seus olhos como se pudéssemos nos comunicar, foi impressionante, arrebatador.

Tamanho foi o deslumbramento com Roca Partida que a possibilidade de poder ficar mais um dia gerou discórdia no grupo entre aqueles que queriam permanecer e os que queriam seguir viagem. No final, partir para o próximo destino, ilha Socorro, se mostrou uma sábia decisão, pois um vento forte entrou e complicou as condições de mergulho por lá.

Ilha Socorro

Em ilha Socorro fica a base da marinha mexicana, que vem inspecionar os barcos de live aboard que estiverem no arquipélago. Lá, mergulhamos em Cabo Pearce, um local com uma linda formação de pedras que se estende para dentro da água com algumas áreas arenosas no meio. Muitos peixes recifais, linguados, moréias e corais tornam o lugar encantador. Mas para quem estava mergulhando nos últimos dias com vida marinha grande, parecia que algo faltava. Alguns tubarões-de-Galápagos e tubarões-martelo que se aproximaram acabaram se tornando o auge deste ponto.

Nosso último dia de mergulhos, foi novamente em San Benedicto. Como o tempo havia virado no dia anterior, vários barcos buscaram abrigo em El Cañon, o ponto mais abrigado da ilha.

Assim, alternamos os mergulhos daquele dia entre Parientes Roca e El Boiler. Parientes Roca é um paredão próximo ao El Canõn, onde vimos tubarões-de-recife assim que caímos na água, um cardume gigantesco em forma de bait ball, enquanto quatro mantas interagiam conosco e mais embaixo, golfinhos brincavam. Desta vez, concentrada na interação com as mantas, não cheguei a vê-los. O segundo mergulho neste ponto nos presenteou com mais mantas.

Fechando com chave de ouro

No primeiro mergulho em El Boiler, apenas duas mantas apareceram ao longe. Tínhamos ficado mal-acostumados a tanta interação e apenas avistá-las a certa distância foi sem graça. Mas pudemos curtir o lugar, cheio de moréias, lagostas, peixes recifais como trombetas e borboletas, raias-manteiga, cardumes enormes, observando também um tubarão-de-galha-branca-de-recife fêmea grávida. Ainda assim, fechamos nossa viagem com chave de ouro. No último mergulho, após uma volta no pináculo em que vimos tubarões-martelo ao longe, duas mantas – novamente uma chevron enorme e uma negra menor – vieram interagir. Cada mergulhador teve seu momento com elas, que vinham de um a um, em um belo espetáculo. Assim como os golfinhos, as mantas também olhavam nos nossos olhos quando passavam, fazendo com que soubéssemos exatamente com quem ela estava interagindo.

Em uma rotina de três a quatro mergulhos por dia, desfrutávamos os encontros com a bela vida subaquática de Revillagigedo, degustávamos a comida deliciosa que o chef do live aboard preparava e nos divertíamos. Esta expedição fez parte das atividades da Latin American Oceanic Manta Ray Alliance (Aliança Latino Americana para Raias Mantas Oceânicas, que inclui o Brasil, o Equador e o México) – um movimento muito bacana de pesquisa e troca informações em prol da preservação das raias-manta oceânicas.

Os pontos de mergulho, em sua maioria, não têm o fundo como referência e ficávamos a uma média de 25m a 30m de profundidade, o que faz com que seja necessário estar sempre atento ao tempo de mergulho descompressivo e à quantidade de ar, usando-se sempre nitrox. Encontra-se correnteza em vários pontos também. Assim, para curtir os mergulhos em todo o seu potencial, é recomendável o aluguel de um cilindro com volume maior, como o de 15L, bem como o uso de nadadeiras de pala longa.

Nesta viagem, mergulhamos em San Benedicto, Roca Partida e Socorro. A quarta ilha que compõe o arquipélago, Clarión, é bem mais afastada e não chega a ser visitada por mergulhadores em live aboard.

Nas brincadeiras de criança em que nos perguntamos qual animal gostaríamos de ser, eu sempre respondi que seria um golfinho. Talvez por isso, mergulhar com golfinhos tenha sido tão especial para mim. Mas, certamente, para todos que puderam vivenciar, foi uma lembrança para levar para a vida.

Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, PPB, tendo treinamento em EFR e certificada como Self Reliant Diver. Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz), Maldivas e Austrália.

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