Leia o emocionante relato de Richard Harris sobre o resgate na Tailândia

Leia o emocionante relato de Richard Harris sobre o resgate na Tailândia

Médico foi crucial na missão, mas humildemente ressalta que o sucesso veio do esforço conjunto: “nossa participação ficou parecendo muito mais nobre do que realmente foi”

O mergulhador e médico australiano Richard “Harry” Harris ficou conhecido como uma das figuras principais na fase crucial do resgate dos garotos tailandeses, presos por 18 dias em uma caverna alagada no norte do país. Foi ele quem avaliou o grupo e deu o sinal verde para início da operação. Seu dupla e braço-direito foi seu colega de muitos anos, Craig Challen, mergulhador e veterinário.

Hoje, 13/7, os dois voltaram para a Austrália, em um avião do governo do país, junto com os outros 20 membros da equipe australiana envolvida na operação (incluindo 6 mergulhadores de caverna da Polícia Federal e 1 mergulhador da Força de Defesa). Durante a viagem, Harry compartilhou um emocionante relato dos 8 dias que viveram em Chang Rai. “Eu nunca havia visto nada assim. O homem lutando para controlar as forças da natureza, as águas das monções.”

Ele chamou os mergulhadores britânicos de “quarteto espetacular”, lembrando que, quando a dupla australiana se uniu à missão, há dias eles já estavam “fazendo os mergulhos mais extraordinários” no sistema; além de encontrar os garotos, haviam cabeado todos os túneis e abastecido o grupo com suprimentos, junto com alguns mergulhadores técnicos locais. “Os esforços e habilidades destes caras não podem ser subestimados. Seguir a linha de alguém é muito mais fácil do que encontrar seu próprio caminho. Foram eles que prepararam e possibilitaram o resgate.”

Com a mensagem, Harry lamenta a morte de Saman Gunan, Navy Seal que morreu durante a missão, e agradece e dá crédito e toda a comunidade internacional envolvida. “Embora possamos ter nos tornado o rosto desse resgate por algum motivo, todos deveriam saber que o papel que desempenhamos não era mais ou menos importante do que o das outras centenas, talvez milhares de pessoas. Nós apenas nos consideramos sortudos por termos algumas habilidades com as quais pudemos contribuir para o maravilhoso desfecho.”

Tragicamente, o pai de Dr. Harris faleceu algumas horas após a conclusão do resgate. Leia, abaixo, seu recado na íntegra:

Richard Harris e Craig Challen no avião para a Austrália

“Estou sentado nos fundos de um avião RAAF C17, no caminho de volta para casa com o Craig e resto do time australiano, membros do Departamento de Comércio e Relações Exteriores (DFAT), da Polícia Civil e da Força de Defesa. Eu sinto que esta é a primeira oportunidade para realmente parar e refletir sobre os eventos nos últimos 8 dias, desde que eu e Craig fomos acionados como uma pequena equipe da AUSMAT (Equipes Australianas de Assistência Médica) para o resgate em Chang Rai, no norte da Tailândia.

No momento em que chegamos ao local, mergulhadores locais como Ben Reymenants e o quarteto espetacular britânico (John Volanthen, Rick Stanton, Jason Mallinson e Chris Jewell) já estavam realizando os mergulhos mais extraordinários pelo sistema de cavernas e passando cabos robustos que permitiram que todos os mergulhos subsequentes fossem não só possíveis, mas seguros. Os esforços e habilidades destes caras em marcar essa rota não podem ser subestimados. Seguir a linha de alguém é muito mais fácil do que encontrar seu próprio caminho. Rick e John não apenas encontraram as crianças e o treinador vivos, como transmitiram a gravidade da situação para o resto do mundo e, assim, o resgate foi levado a sério. Os britânicos ainda fizeram diversos mergulhos para abastecer o time de futebol e os quatro Navy Seals tailandeses, que permitiu que se preparassem e se fortalecessem para o resgate.

Enquanto isso, em solo, os tailandeses e a comunidade internacional enviavam enxames de homens e mulheres para fornecerem tudo, desde refeições, comunicações, imprensa e, claro, as enormes equipes de trabalhadores enchendo a caverna com toneladas e toneladas de equipamentos para tentar baixar o nível de água e sustentar as operações de mergulho. Eu nunca vi nada parecido com isso, o homem lutando para controlar as forças naturais das águas das monções. Escaladores locais e trabalhadores de acesso por corda aparelharam a parte seca do sistema, para aquela parte do resgate, e vasculharam a floresta em busca de mais entradas para a caverna. As equipes de perfuração tentaram atravessar quase um quilômetro de rocha até a localização dos garotos. E todo esse tempo quatro bravos Navy Seals sentaram-se com os Wild Boars, sabendo que corriam em tanto perigo quanto as crianças.

Quando parecia que todas as outras opções estavam esgotadas, a arriscada decisão de nadar os jogadores para fora foi tomada e o resgate foi adiante. Conforme as crianças saíam, os quatro mergulhadores britânicos de resgate eram apoiados por Craig e eu; três jovens talentosos do CDG (Cave Diving Group) do Reino Unido – Connor, Josh e Jim; e o time euro-canadense – Erik, Ivan, nosso bom companheiro Claus e Nikko. A pressão que foi colocada nesses caras foi imensa, e eles não deixaram cair nem por um segundo.

Quando as crianças e o técnico foram levados para a câmara 3, as equipes de paramédicos norte-americanos, mergulhadores australianos da AFP-SRG (Australian Federal Police – Specialist Response Group), mergulhadores chineses e médicos militares e da Marinha tailandesa avaliaram as crianças e as levaram para um hospital de campanha, antes de removê-las para o enorme hospital no centro de Chang Rai. Em nosso retorno para casa, tivemos a sorte de visitar os meninos, o treinador, os Seals e toda a bela equipe médica e de enfermagem.

Eu queria escrever isso para tentar dar crédito a todas as pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas. Craig e eu estivemos sob os holofotes em nossos esforços mas queremos que todos percebam que, embora possamos ter nos tornado o rosto desse resgate por algum motivo, todos deveriam saber que o papel que desempenhamos não era mais ou menos importante do que o das outras centenas (talvez milhares) de pessoas que mencionei. Nossa participação ficou parecendo ser muito mais nobre do que realmente foi; nós apenas nos consideramos sortudos por termos algumas habilidades com as quais pudemos contribuir para o maravilhoso desfecho.

Agradecimentos especiais ao NCCTRC (National Critical Care and Trauma Response Centre) e AUSMAT, ao DFAT, aos funcionários da embaixada australiana na Tailândia, à Polícia Turística tailandesa (nossos protetores!), aos espeleólogos locais. Nossas sinceras condolências à família do ex-Navy Seal Saman Gunan, que morreu durante os esforços de resgate.

Em, casa vamos agradecer nossas famílias por lidarem com a mídia e com a preocupação que causamos a eles (eles estão acostumados a essa última, eu receio). À MedSTAR e ao SA Ambulance Service pela assistência e apoio, especialmente dos Drs James Doube e Andrew Pearce; à equipe da Specialist Anesthetic Services pelo mesmo motivo. À Cave Divers Association da Austrália (CDAA) por lidar com a onda de interesse em nosso esporte, a equipe de gerenciamento lá tem sido incrível, especialmente o nosso grande amigo John Dalla-Zuanna. À comunidade internacional de espeleólogos e mergulhadores, que trataram o assunto com graça e dignidade, tentando divulgar alguns fatos na mídia! Finalmente, aos milhares de simpatizantes da Tailândia e ao redor do mundo, nós prometemos que lemos todas as mensagens! 

Kittanu, Michael, Cameron, Andrew, Glenn, Jo e Grace… desculpe por levar-lhes tanta aflição! Vocês são legendários. Para o nosso novo bando de irmãos, os mergulhadores australianos, norte-americanos, britânicos, europeus e canadenses: respeito e amizades para a vida toda.

Harry e Craig”

Craig e Harry visitam o hospital de Chang Rai

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