Lawrence Wahba fala sobre o acidente com tubarão tigre em Cocos

Reflexões de um Shark Diver (foto abertura: Lucas Gaspar Pupo)

Esperei um pouco antes de me manifestar sobre um raro acidente que ocorreu nas Ilhas Coco na última 5af. Para quem ainda não sabe, um tubarão-tigre atacou dois mergulhadores autônomos, matando uma turista americana e ferindo seu divemaster costa-riquenho. Conheço a excelente empresa responsável pela operação e tenho convicção de que o tubarão não foi provocado nem atraído por iscas. O mergulho ocorreu dentro das normas e padrões em que o shark –diving é praticado internacionalmente. Então me pergunto: Será que os padrões estão corretos ou será que estamos “banalizando” o shark-diving?

Proponho uma reflexão sem querer julgar ninguém, afinal três dias antes mergulhei com tubarões-tigre na Ilha Socorro, não muito distante dali, em condições semelhantes; e em 2015 me aproximei deliberadamente de uma fêmea da espécie de quase 5 metros de comprimento exatamente no local desse ataque para fazer a 1a imagem desse post.
Na verdade, se considerarmos o número de mergulhadores que praticam shark-diving e o baixíssimo numero de acidentes, chegaremos a conclusão de que a prática em si é extremamente segura. Porém, diante de mais uma morte, fica evidente que por menores que sejam, riscos existem e não deveriam ser subestimados.

“Por que o tubarão atacou?” é a pergunta que mais tenho ouvido. Não há uma resposta precisa, mas como especialista no assunto, minha resposta é simples: Porque ele pode !
Embora não costume atacar mergulhadores autônomos, um tubarão-tigre de grande porte tem capacidade para tal. O próprio Jacques Cousteau disse em 1951: “Quanto mais nos familiarizamos com os tubarões, menos os conhecemos. Ninguém consegue prever o que um tubarão vai fazer”. Quem sou eu para discordar dele?
Fiz entre 1500 e 2000 mergulhos sem gaiola de proteção com tubarões de mais de 60 espécies, inclusive as 5 mais perigosas, e em cerca de 99% deles tudo ocorreu de forma tranquila e harmônica. O problema esta nesse 1% fora da curva !

Será que esse risco, por menor que seja, não deveria ser calculado? Fazendo uma analogia simplória, nós “batemos” o carro menos de 1% das vezes em que dirigimos mas sempre utilizamos cinto de segurança. Caímos de moto menos de 1% das vezes que pilotamos, mas sempre usamos capacete… então porque não utilizamos dispositivos de segurança que minimizam o risco de se mergulhar com tubarões?
Nós mergulhadores estamos tão doutrinados pelo discurso de que tubarões não atacam que esquecemos do simples fato de que podem atacar. São predadores poderosos em seu habitat e nós somos frágeis intrusos lentos e desengonçados.

Quando iniciei no shark-diving no inicio dos anos 90, a prática era “para gente grande”. Ninguém com menos de 200-300 mergulhos se atreveria a mergulhar numa sessão de alimentação e muito menos cairia na água sem gaiola com algum dos “big five” (branco, tigre, cabeça-chata, galha-branca-oceânico e grande martelo). Hoje em dia, com o potencial mercadológico da prática, operadores sérios levam qualquer “bunda-de-rolha” para mergulhar com tubarões. Semana passada vi um operador “despejar” 18 mergulhadores, a maioria inexperiente, num mergulho noturno com uma dúzia de silky-sharks e ninguém, nem os divemasters, carregavam algum dispositivo de segurança!

Foto: Marcelo Skaf

Em 1993, durante a expedição “Segredos Submersos do Atlântico”, levávamos até luparas, bastões com ponteiras explosivas com balas calibre 38, para nos defender dos tubarões. Acessório extremo, potencialmente perigoso aos próprios mergulhadores e que jamais precisamos usar. Até hoje mergulho desarmado com tubarões, porém a robusta caixa estanque de minha câmera, serve como escudo. Não estou falando teoricamente. Em pelo menos 15 ocasiões a utilizei para golpear tubarões ou bloquear ataques. Mais eficiente ainda é um bastão de metal ou um arpão havaiano sem ponteira. Em junho desse ano, na Sardine Run na África do Sul, eu e meu divemaster fomos rodeados insistentemente por alguns tubarões dusky de grande porte. Ficamos de costas um pro outro e os golpeamos algumas vezes, eu com a caixa estanque e ele com um bastão de metal. Se não tivéssemos os instrumentos, certamente teríamos sido mordidos.

Os primeiros relatos que chegam do acidente dizem que o divemaster tentou espantar o tubarão, que os atacou durante a subida da parada de segurança. Eu me pergunto COMO ele tentou espanta-lo? É lamentável saber que o uso de um simples bastão de metal ou um arpão havaiano poderiam ter salvo a vida da mergulhadora Rohina Bandhari sem machucar gravemente o animal.
Como disse no começo desse texto, não pretendo julgar ninguém. Continuo defendendo os tubarões e defendendo a prática do shark-diving como modalidade de eco-turismo que aumenta a compreensão sobre esses animais e gera receita para sua conservação. Porém acidentes como esse servem para lembrar que a prática não deve ser banalizada, ainda mais quando se promove mergulhos onde há presença de animais de grande porte e/ou de espécies potencialmente agressivas. Infelizmente essa triste morte serve para refletirmos e aumentarmos os procedimentos de segurança. Nos manuais das certificadoras o mergulho é descrito como uma atividade segura e planejada, será que é mesmo?
Meus sentimentos aos amigos e familiares da vitima e dos demais envolvidos.

PS. Em tempo, para que tubarões tigres não fiquem estigmatizados, as 2 1as imagens desse post são frames que filmei no mesmo lugar do ataque, seguida por fotos de Marcelo Skaf de interação minha com tigre na África do Sul em 2008 e por Lucas Gaspar Pupo de interação minha com tigre nas Bahamas em 2014. Em mais de 100 horas de mergulho com tubarões dessa espécie nos três oceanos jamais me senti ameaçado por eles.

3 Comentários

  1. Muito bom!! Concordo em todas as palavras amigo.

  2. Até o Lulu, meu fiel e grande amigo que convive há anos dentro de casa com minha família, às vezes fica mal humorado e arrisca umas inofensivas mordidas, tipo “chega pra lá”.
    Um “chega pra lá” de um inofensivo tubarão pode resultar na tragédia aqui descrita.
    Cada um deve saber o risco que corre em ambientes habitados por animais imprevisíveis.
    No mar não tem Lulu!

  3. Muy bueno el post. Pero nunca te sentiste amebazado???? Si describes una situacion donde estaban tu y el dive master rodeados y tu con tu camara y el con un baston pegandole a los tiburones… la realidad es que nositros tenemos que ser conscientes del 1%de posibilidades de ataque. Somos nosotros quienes nos metemos en su habitat y somos intrusos corriendo riesgos. Esta en nosotros correr ese riesgo o no. Son depredadores y no hay que olvidarlo. Es su naturaleza aunque prefieran alimentarse de peces o tortugas en lugar de buzos. Saludos!

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