Grande tubarão-martelo é avistado em Fernando de Noronha; veja foto inédita

Raríssimo encontro nas águas de Noronha: um tubarão-martelo foi visto por mergulhadores na Laje Dois Irmãos, na manhã de domingo (14/10). A foto-identificação aponta tratar-se de um Grande Martelo (Sphyrna mokarran) juvenil, com cerca de 2,5m de comprimento.

Great Hammerhead é visto na Laje Dois Irmãos, em Fernando de Noronha | Foto: Barracudas/Nati Lemos

O instrutor Francisco Costa, conhecido como “Lula”, estava guiando o grupo da operadora Águas Claras, quando avistou o animal, por volta dos 20m de profundidade. “Com cerca de 15 minutos de fundo, depois de já termos visto vários tubarões-bico-fino, seguimos adiante. Beirando o contorno da laje, na maior paz, vejo o martelo! Ele apareceu aproximando-se da gente, deu umas voltas na nossa frente e continuou seu caminho na mesma calma. Eu já havia visto martelo mas é uma raridade encontrar um desses por aqui. Um encontro muito emocionante”, disse Lula.

A fotógrafa Natália Lemos, da Barracudas Imagens, que acompanhava o grupo, foi quem registrou a ilustre presença. “O encanto do mergulho é a incerteza do que vamos encontrar. Aqui em Fernando de Noronha, temos lindas formações, corais e peixes coloridos. E podemos nos surpreender a qualquer momento, como com as correntes que sentimos mudar durante um mergulho ou até mesmo com um encontro dos sonhos com um tubarão-martelo. Com seu corpo bem característico, não tive dúvidas de que era ele. Fui tomada por uma mistura de adrenalina com a maior alegria, por encontrar pela primeira vez e poder fotografar esse animal incrível. Foi um sonho realizado”, disse Nati.

O último registro de um tubarão-martelo no arquipélago era de dez anos atrás, justamente na mesma Laje Dois Irmãos. Em 2008, “Bodão”, guiava um mergulho pela Águas Claras (hoje, ele comanda a Mar de Noronha, operação na Praia do Porto) e também avistou um Grande Martelo, com mais de 3m de comprimento, para deleite das lentes de “Cachorrinho”.

Grande tubarão-martelo na Laje Dois Irmãos 2008 | Foto: Jefferson “Cachorrinho” Galdino

Diversas espécies

Três espécies de tubarão são abundantes em Noronha: o tubarão-lixa ou lambaru (Ginglymostoma cirratum), o tubarão-cabeça-de-cesto ou bico-fino (Carcharhinus perezi) e o tubarão-limão (Negaprion brevirostris). Além delas, que vivem e se reproduzem por lá, estudos apontam que o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) está habitando o entorno do arquipélago, com encontros cada vez mais frequentes nos últimos anos. Também há relatos esporádicos de espécies com hábitos mais oceânicos, como tubarão-martelo (Spyrna sp) e até tubarão-baleia (Rhincodon typus).

“A presença de predadores de topo, como tubarões-martelos, em áreas marinhas protegidas como Noronha é um indicativo ambiental bastante positivo, mostrando um aumento significativo da biodiversidade. Espécies de tubarão são um componente necessário para a manutenção de um ecossistema marinho complexo e equilibrado, pois controlam as populações de suas presas, criando um equilíbrio entre todas as espécies naturais do local. Além disso, muitas vezes se alimentam de bichos doentes ou velhos”, disse o biólogo marinho e pesquisador Eric Comin.

O Grande Martelo, também conhecido como tubarão-panã, é a maior espécie de tubarão-martelo, podendo atingir 6m de comprimento e pesar mais de 450kg. Vive em águas quentes, pouco profundas, pelas plataformas continentais de quase toda a zona tropical do planeta. Ele distingue-se de outros tubarões-martelo pela forma do seu “martelo” – chamado “cefalofólio” –, que é mais largo e com a frente quase reta, e também pela altura descomunal de sua primeira nadadeira dorsal (a “barbatana”), curvada como uma foice. A função do cefalofólio é localizar e imobilizar suas presas, principalmente raias-prego, que ele devora com o ferrão e tudo, e até tubarões menores.

Já considerado em risco de extinção, o Grande Martelo é um dos tubarões mais ameaçados pela pesca, seja proposital por pesqueiros ilegais ou incidental – ele é comumente preso por acidente em redes industriais e mesmo artesanais. Suas grandes barbatanas são muito valiosas no mercado, para cosméticos e suplementos, assim como seu fígado. Aqui no Brasil, mesmo com a pesca proibida, até a carne é comercializada – e um tubarão deste tamanho tem muita carne, que chega à peixaria com o nome de “cação”. Adicionando o baixo potencial reprodutivo – ninhadas de até 55 filhotes a cada dois anos – à equação, fica evidente que suas populações estão diminuindo drasticamente pelo mundo todo.

Laje Dois Irmão é rica em formações coralíneas e cardumes coloridos | foto: All Angle/Nayara Bucair

Laje dos tubarões

No mar de dentro, em frente à praia Caçimba do Padre e aos pés do maior cartão-postal do arquipélago, a Laje Dois Irmãos é conhecida pela frequente presença de tubarões bico-fino e raias-chita. A alta complexidade do fundo do local, com diversas colônias de corais e esponjas e grande diversidade de peixes – como frades, garoupas-pintadas e limpadores com os quais interagem –, é um dos motivos para a presença desses grandes animais, inclusive juvenis, durante todo o ano. É um ponto relativamente raso (23m), sem obstáculos naturais e pouco suscetível a correnteza, sendo ideal para qualquer mergulhador, desde o mais básico. Infelizmente, lá a pesca é permitida, pois não está dento da área de proteção do Parque Marinho.

“Criatura digna de admiração e respeito, o tubarão-martelo consta na lista de espécies vulneráveis à extinção. O comércio da sua carne e das barbatanas (nadadeiras) ainda são grandes e a maioria tem como destino os países asiáticos. A grande problemática no Brasil está ligada também ao consumo de sua de sua carne ou de suas partes na forma de ensopados e bolinhos e até de objetos de decoração com mandíbulas ou dentes. Todas as vezes que compramos esses produtos, incentivamos a pesca de tubarão. É importante alertar sobre sua importância para os oceanos e compartilhar atitudes conscientes de conservação e preservação desses animais, que demoram a atingir a maturidade sexual e acabam sendo pescados antes de se reproduzir, o que, além de diminuir a população, causa um enorme prejuízo ambiental”, ressaltou Eric.

Sphyrna mokarran em Bimini foto: Kadu Pinheiro

Grande tubarão-martelo (tubarão-martelo-panã)
nome científico: Sphyrna mokarran
habitat: áreas costeiras e plataformas continentais da zona tropical do planeta
estado de conservação: risco de extinção
tamanho: até 6m e 450kg

 

por: Marcella Duarte | Divemag

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