E você, amigo
mergulhador?

Com certeza os leitores vão se perguntar: o que faz um Delegado de Polícia nessa revista?

O que ele tem a dizer a nós mergulhadores?

A pouco tempo eu também não saberia dizer, mas em uma conversa informal com um grande amigo e exímio mergulhador, Bruno Tae, percebi por instinto, muitas coisas semelhantes entre o mundo do mergulho e meu mundo operacional.

Nessa nossa conversa, Bruno foi discorrendo sobre as maravilhas e também os perigos que envolvem a modalidade do mergulho.

Explicou a necessidade de cursos, equipamentos específicos e como essa aventura é séria e às vezes pode ser até fatal.

Logo me veio à mente meus trinta anos de carreira, todos os meus cursos, dos básicos até os realizados no exterior, minha prática com o uso dos meus equipamentos, os cuidados do dia a dia, o planejamento das operações o treinamento. E o quando dessas práticas poderiam ajudar como aconselhamento, principalmente no quesito, segurança.

Tracei então alguns paralelos entre as minhas experiências profissionais e a prática do mergulho, desejando assim com minha visão diferente sobre o tema, poder ajudar a evitar e prevenir acidentes.

O dia a dia da minha profissão não é glamuroso como um filme de ação. Em cada operação que participamos, sabemos que o risco está presente. Em cada beco, em cada esquina, a morte pode estar esperando.

Mas até chegar esse momento da ação, quanto preparo, treinamento, planejamento.

Vejo assim o mergulho. Uma operação delicada em um ambiente, que embora fantástico, pode se apresentar muito hostil.

Começo então falando aos leitores sobre fundamentos.

Recordo-me da minha primeira arma. Um revólver Rossi, calibre 38, seis tiros. Minha primeira aula prática com ele, o primeiro disparo. Um grande susto com forte estouro, e em seguida a minha dificuldade de concentração em virtude dos disparos efetuados pelos colegas ao meu lado.

Pois até hoje vou ao stand de tiro, uma vez por mês, e treino esses primeiros fundamentos, a empunhadura, a pressão do dedo sobre o gatilho, a mira. Sim, para tudo o que eu viria a aprender depois, esses foram a base onde apoiei meu progresso e é pra onde retorno para nunca esquecer que o primeiro passo é a base de tudo.

E você amigo mergulhador: tem praticado fundamentos? Não acha importante? Já sabe tudo. Então me reponde como anda seu equilíbrio hidrostático? Sua natação? Sua flutuabilidade?

Eu aprendi que depois de repetir centenas e até milhares de vezes um movimento ou manobra, não preciso mais pensar para realizá-lo.

E dessa forma, com treino e muito mais treino, vamos progredindo em habilidades e uso de equipamentos.

Adoro novidades. Armas novas e novas tecnologias.

Mas jamais ouso participar ou comandar uma operação policial, sem ter antes treinado muito com uma arma nova, ou com qualquer outro equipamento novo, pois no momento da ação, sei que não vou ter tempo para pensar, e um segundo no meio a uma troca de tiros, pode significar vida ou morte.

Amamos novos equipamentos e tecnologias, às vezes gastamos fortunas para adquirirmos as novidades. Porque então não testá-los exaustivamente, descobrindo assim suas qualidades, performance, falhas, para só mais tarde, com total confiança, poder colocá-lo em uso.

Nunca se arrisquem, principalmente se o mergulho for difícil, a utilizar um equipamento que nunca testou. Com certeza irá colocar a sua vida e a de terceiros em risco.

Nessa minha caminhada, treinei, aprendi a manusear minhas armas, e utilizo ainda um colete à prova de balas, operacional, cheio de bolsos e velcros. Nele eu coloco, lanterna, algemas, carregadores sobressalentes, canivete, gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral, de luz e som, de gás, nossa, quanta coisa.

Nos treinamentos aprendi a colocar cada coisa em seu lugar, não alterando nunca sua posição. E tudo tem que estar ao alcance de ambas as mãos, mesmo na ausência total de luz, sei achar e utilizar qualquer equipamento. Está tudo gravado em minha memória, de forma que em qualquer situação de maneira automática eu sei onde cada coisa está.

Ser organizado com todo o seu material de mergulho, mesmo que nunca venha a utilizá-lo é fundamental, principalmente em uma situação de risco. No momento que a necessidade se apresenta, não podemos perder tempo procurando uma faca por exemplo.

E às vezes, mesmo tomados todos os procedimentos, tendo treinado exaustivamente, podemos ser surpreendidos pelo infortúnio de um acidente, que venha a imobilizar uma de nossas mãos ou braços.

Vai aí uma sugestão, que pra nós é uma obrigação. Pratique, treine, a operar todo o equipamento com ambas as mãos. Seja hábil com as duas.

Eu sou destro, mas treino, a exaustão, a prática de tiro com minha mão esquerda. Como carregar, municiar, e evitar panes. Pois esse detalhe também pode significar muito no momento de um confronto ou de um acidente.

Muito bem. Treinei, sei manejar como ninguém minha arma nova, meus fundamentos estão em dia, mas eu estou sem preparo físico, obeso, sedentário. E dessa forma, resolvo sair a campo em uma diligência de cumprimento de mandado. Precisei correr como um atleta, e em seguida num momento de ação eu atirei.

Onde irei acertar? Só Deus sabe.

Sei que ofegante, com as mãos oscilantes e cansado, eu jamais irei atingir meu alvo.

O preparo físico é fundamental para que se efetue um disparo perfeito e preciso. Estar fisicamente preparado também deve ser uma das preocupações do mergulhador. Isso faz parte dos fundamentos da respiração, do consumo de gás. Quem não quer ter uma folga de oxigênio em seu cilindro. O preparo físico e mais um detalhe de segurança na prática do mergulho e detalhes as vezes salvam vidas.

Para concluir nossa conversa, vou narrar uma experiência profissional negativa pela qual passei:

Estava em minha delegacia no Denarc, quase no final de um dia tranquilo de trabalho. Quando recebemos a denúncia de uma entrega de entorpecente que aconteceria em um bairro aqui de São Paulo.

A denúncia estava tão bem-feita e a ação dos marginais discriminada, que achamos fácil demais. Uma operação rápida e tranquila.

Saímos eu e minha equipe. Todos dentro de uma Van. Ela toda lacrada e com pouca visibilidade. Como íamos apenas acompanhar a entrega, e na hora precisa abordar e prender, fomos dispersos. Simples assim. Acabamos saindo atrasados. Ao estacionarmos a van, colidimos com outro veículo já estacionado. Todos se desconcentraram. Quando fomos perceber, do outro lado da rua, bem perto de nós, vimos o carro da entrega. Nosso alvo estava ali. Todos desceram rapidamente da van correndo em direção ao carro do traficante. Entretanto, em virtude do nosso atraso em sair, e distração causada pela colisão, não percebemos que havia um segundo veículo na operação dos traficantes. Era a escolta da droga. Eu e minha equipe nuca havíamos levado tantos tiros. Um dos traficantes da escolta estava portando uma metralhadora, e a descarregou em nossa direção. Graças a Deus e a má pontaria do traficante, ninguém foi atingido.

Dessa experiência eu transporto a vocês mergulhadores. Não tenha pressa. Conheça o terreno que vai explorar. Obedeçam aos horários. Planeje sua aventura com calma. Saiba sempre o que vai enfrentar, ou pelo menos não seja surpreendido por não ter se preparado de forma correta.

O mergulho eu sei, é bem diferente da minha atividade profissional. É antes de tudo um lazer, uma aventura. Mas certas coisas como vimos, são bem semelhantes em ambas as atividades, no tocante à preparo e segurança, pois o que todos nós mais queremos é voltar inteiros pra casa.

Um ótimo mergulho!

Alexandre Gargano Cavalheiro é delegado de Polícia Civil Seccional de Guarulhos. Trabalhou na Denarc por 12 anos. Escreveu livro O INFORMANTE, HISTÓRIA SEM HERÓIS, ganhador do prêmio Melhor Livro do Ano de Guarulhos.

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