Maurício de Carvalho recupera placa desaparecida da Corveta V-17 Ipiranga

Maurício de Carvalho recupera placa desaparecida da Corveta V-17 Ipiranga

Placa havia sido retirada do conhecido naufrágio de Fernando de Noronha há mais de três décadas

O renomado especialista em naufrágios Maurício Carvalho conseguiu resgatar um dos artefatos mais relevantes para história da Corveta Ipiranga V-17: uma das placas com o emblema e nome do navio, que ficava na lateral da chaminé e foi retirada do naufrágio nos anos 80, por um mergulhador desconhecido.

Maurício nos contou detalhadamente, com exclusividade, como foi o processo de recuperação da placa e posterior entrega para a Marinha do Brasil. Ele aproveitou para fazer um desabafo em relação a críticas infundadas que recebeu de diversos “especialistas e desinformados”.

Veja a íntegra de seu relato:

“A origem do mergulho em naufrágio está intimamente associada à remoção dos destroços que prejudicavam a navegação nos portos depois da primeira e segunda guerras mundiais. Os governos estimulavam fortemente a remoção desses despojos, para acelerar a desobstrução das rotas marítimas. Assim, é razoável entender a orientação das primeiras gerações de mergulhadores, de “arrancar o que se podia”.

Ao longo dos anos, muitas peças de naufrágios se perderam, os mergulhadores retiravam quaisquer partes dos navios como lembranças, normalmente por valorizarem artefatos associados à atividade que tanto amam. Alguns mergulhadores das décadas passadas não percebiam que os objetos em geral não apresentam valor longe do seu contexto, o naufrágio aos quais pertencem. Mas isso não significa que sejam pessoas do mal.

O tempo passou e a consciência do valor cultural dos bens subaquáticos amadureceu – mas a cultura não muda rápido. Apontar o dedo e criticar os outros tem sido cada vez mais a característica de nosso tempo. É  mais trabalhoso tentar entender o contexto histórico e a educação das pessoas. É necessário mostrar a elas um novo momento na cultura subaquática. Minha experiência me aponta que isso nem é tão difícil, educação é a chave de tudo.

Pela educação, tenho voltado meu trabalho para tentar resgatar algumas dessas peças e permitir que a história trágico-marítima brasileira possa ser melhor contada.

A recuperação da placa da corveta Ipiranga

Há cerca de um ano, uma pessoa que não eu conhecia entrou em contato através do site Naufrágios do Brasil, querendo se informar sobre a possibilidade da venda de uma peça retirada do naufrágio da Corveta Ipiranga, de Fernando de Noronha. Eu solicitei que ela me enviasse uma foto para tentar identificar de que peça se tratava. A foto indicava o ótimo estado de uma das placas com o emblema e nome do navio da lateral da chaminé.

Questionei a origem da peça e ela me informou que a placa havia sido retirada por uma pessoa já falecida. Imaginei logo que devia ter sido pega na mesma operação que, entre 1985 e 1986, retirou o sino do navio. Essa operação foi registrada no documentário do Discovery Channel que foi exibido na TV brasileira – as fotos estão na página da Corveta Ipiranga do site Naufrágios do Brasil.

A pessoa me questionou se a peça apresentava valor comercial e eu expliquei que a venda de objetos retirados de naufrágios é proibida por Lei (lei 7542). Ela não fez mais contato durante algum tempo. Meses depois, ela novamente perguntou se havia interesse em adquirir a peça e mais uma vez eu expliquei que não haveria possibilidade de compra de uma peça dessa natureza, principalmente por tratar-se do naufrágio de um navio da Marinha Brasileira. Diante dessa situação, ela expressou a intenção de livrar-se da peça, para não ter problemas. Argumentei que, se o objetivo era não possuir mais a peça, a placa poderia ser doada Marinha do Brasil pois a peça era de relevância histórica, então fui questionado se não haveria algum risco legal.

Procurei ao longo de vários e-mails convencê-la de que eu poderia recolher a peça e devolver diretamente à Marinha, sem sua participação, enviando depois uma foto para comprovar o que havíamos combinado. Ela pediu um tempo para pensar e consultar outros familiares – mais alguns meses de agonia, mas eu só podia esperar. Alguns meses depois, finalmente um novo contato para propor que eu pegasse a peça. Rapidamente, entrei em contato como Museu Naval da Marinha na figura das Comandantes Miquilini e Miriam, da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação. Expliquei a urgência da situação, já que temia que a placa desaparecesse. As oficiais me deram carta branca para recuperar a peça e retorná-la à Marinha.

Neste final de semana recebi a peça de um portador e, já na segunda-feira (9/7), entrei em contato com a Comandante Miriam e combinamos que eu levaria a peça até o Museu Naval. Foi assim que a placa com a insígnia do navio conseguiu retornar à Marinha do Brasil, seu original proprietário.

O que não esperava era tamanha revolta por pessoas que, de forma apressada, acharam que eu tinha retirado a placa do naufrágio. Bastava olhar as fotos: como poderia ter saído do fundo do mar, depois de mais de 30 anos, e em 24 horas já estar brilhando? Eu teria de ser um deus da restauração.

Pelo lado bom, talvez isso tudo mostre uma mudança da cultura: proteger os bens subaquáticos está na frente de uma leitura mais atenta. Ponto para os protetores de naufrágio e vamos juntos buscar outras peças já removidas e abandonadas, para que possam compor o acervo dos museus.”

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